
Ao estruturar um utility token, é indispensável que os criadores considerem cuidadosamente a abordagem jurídica dentro do contexto regulatório vigente. No universo web3, predominam três visões principais sobre como garantir conformidade legal ao lançar tokens.
A primeira abordagem, apesar de ser amplamente difundida, é considerada arriscada. Seus adeptos acreditam que órgãos reguladores não conseguirão controlar o setor de criptomoedas, e que a tecnologia blockchain e sistemas descentralizados evoluirão mais rápido que a legislação. No entanto, essa perspectiva ignora o extenso histórico de precedentes jurídicos. Diversas decisões judiciais já comprovaram que autoridades regulatórias identificaram violações legais em ativos digitais distribuídos via vendas de tokens e Initial Coin Offerings (ICOs), classificando esses ativos como investimentos sob a legislação de valores mobiliários. Empresas que optaram por esse caminho sofreram sanções pesadas. A conformidade regulatória é obrigatória e deve ser respeitada por todos os criadores de tokens.
A segunda abordagem tenta contornar a fiscalização ao vender valores mobiliários digitais explorando lacunas legais nas normas de valores mobiliários. Essa estratégia falha em cerca de 99% dos casos. Mesmo que criadores de tokens obtenham pareceres jurídicos de advogados por valores entre US$5.000 e US$10.000, as autoridades regulatórias analisam cada situação de forma individual e aprofundada. Os tribunais consideram as relações econômicas reais, não apenas os documentos formais, e tokens mal estruturados acabam sendo reclassificados como valores mobiliários, independentemente da documentação.
A terceira, e mais criteriosa abordagem, consiste em realizar uma análise jurídica completa para definir se o token deve ser estruturado como security token (contrato de investimento) ou utility token. Apesar de pouco adotada na indústria cripto por ser mais cara e demorar mais para lançar projetos, essa é a melhor prática para criar fundamentos sólidos. Empresas que investem em pesquisa jurídica durante o desenvolvimento da tokenomics garantem maior estabilidade e sustentabilidade para suas comunidades e projetos.
Pela legislação federal, um token é considerado valor mobiliário caso gere expectativa de lucro aos detentores com base nos esforços de terceiros. Tokens que não se enquadram nessa definição legal são classificados como utility tokens. Essa distinção é fundamental, pois utility tokens apresentam vantagens relevantes em relação aos security tokens:
Utility tokens exigem despesas jurídicas bem menores do que security tokens, que demandam documentação extensiva e registros regulatórios. Ao contrário dos security tokens, utility tokens dispensam relatórios adicionais ao governo e monitoramento regulatório permanente. Por não serem valores mobiliários, utility tokens recebem pouca atenção dos órgãos reguladores. São negociados em muito mais plataformas—cerca de 100 vezes mais pares de negociação e oportunidades de finanças descentralizadas em comparação aos security tokens. Além disso, detentores de utility tokens não precisam cumprir exigências de Know Your Customer (KYC) e Anti-Money Laundering (AML) que restringem operações com security tokens.
A venda direta de tokens é um forte indicativo para fiscalização regulatória, pois se assemelha à oferta tradicional de valores mobiliários. Entretanto, diversos projetos de sucesso evitam esse risco distribuindo tokens por mecanismos alternativos, e não por vendas. Exemplos incluem Bitcoin, Axie Infinity e programas de milhagem de companhias aéreas.
Quando tokens são emitidos e distribuídos sem oferta centralizada, fica difícil aplicar regras tradicionais de valores mobiliários. Isso ocorre porque não há um único emissor e os beneficiários precisam realizar alguma atividade para obter as recompensas.
Entre os mecanismos criativos de distribuição estão recompensas por atividades físicas, como no caso do StepN, que permite aos usuários emitir tokens ao caminhar ou correr. Plataformas de jogos como Axie Infinity recompensam participantes que jogam no blockchain. Provedores de hardware, como Chia Network, remuneram quem empresta capacidade de processamento de disco rígido. O exemplo mais emblemático é o Bitcoin, que recompensa mineradores com BTC por disponibilizarem poder computacional. Programas tradicionais de fidelidade também seguem esse modelo—companhias aéreas distribuem milhas a clientes de cartão de crédito e passageiros, criando recompensas de valor resgatável.
Ao oferecer benefícios aos detentores de tokens, é juridicamente mais seguro estruturar pagamentos como pontos de bônus ou recompensas, e não como dividendos. Esses pontos podem ser convertidos em vantagens reais, como descontos em serviços ou acesso exclusivo a funcionalidades.
O Lofty.ai exemplifica essa estratégia em sua plataforma de investimentos imobiliários tokenizados, onde usuários fazem staking de tokens para ganhar recompensas, como acesso VIP a ofertas e NFTs exclusivos. Essa estrutura mantém as características de utility token e evita classificação como valor mobiliário. Já se Lofty pagasse recompensas em moeda fiduciária ou criptomoeda, o token seria enquadrado como security token pelos reguladores.
Braintrust, plataforma descentralizada de freelancers, é outro caso de sucesso. Participantes podem emitir BTRST ao convidar novos usuários e concluir processos de validação entre pares. Os detentores de BTRST resgatam tokens por benefícios utilitários, como descontos em software, recursos de carreira especializados e vantagens exclusivas. Essa estrutura demonstra o valor utilitário do token, sem criar expectativa de investimento.
Um erro recorrente de muitos projetos web3 está em comunicações públicas que criam expectativa de retorno financeiro. Esse comportamento, conhecido como "moon talk", aumenta consideravelmente o risco de fiscalização regulatória. Exemplos incluem afirmações do tipo "Invista em nossa moeda", "Nossa moeda vai valorizar muito", "Stake para retornos irreais" ou projeções de preços futuros em exchanges.
Essas declarações são especialmente problemáticas porque muitos investidores de varejo não têm formação financeira ou jurídica, ficando suscetíveis a promessas exageradas. Quando líderes de projetos fazem tais afirmações publicamente, geram provas documentais de que o token atua como contrato de investimento com expectativa de lucro baseada nos esforços da equipe—o que caracteriza valor mobiliário perante a legislação.
A emissão e gestão de security tokens demanda muito mais investimento jurídico e acarreta riscos regulatórios superiores se comparado à criação de utility tokens com benefícios reais aos detentores. Apesar da existência de diferentes marcos legais para utility tokens, todos convergem para um princípio: o detentor deve realizar alguma atividade relevante para conquistar tokens e receber benefícios reais por sua participação.
Projetos web3 devem priorizar a conformidade legal em todas as etapas da criação de tokens, assegurando que a estrutura de tokenomics e as comunicações de marketing mantenham os critérios claros de utility token. Ao adotar essas três estratégias—distribuição por recompensa, estruturação de pagamentos como pontos de bônus e ausência de expectativa de lucro—os criadores podem desenvolver projetos sustentáveis que operam em conformidade com as regulações federais de valores mobiliários.
Utility token é um ativo digital que permite acesso a serviços em ecossistemas blockchain. Diferente do security token, não oferece direito de propriedade ou voto, mas viabiliza funções específicas na plataforma. Seu valor oscila conforme demanda e uso dos serviços.
Security token é um ativo criptográfico que representa propriedade de ativos reais, como ações, imóveis ou commodities. Une transparência blockchain com conformidade regulatória, sendo voltado para investimentos institucionais.
Sim, ETH é majoritariamente um utility token para a rede Ethereum. Ele viabiliza transações, smart contracts e pagamento de taxas de gas. ETH também funciona como reserva de valor e ultrapassou o uso puramente utilitário.
Utility tokens enfrentam incertezas regulatórias, volatilidade do mercado, riscos de liquidez e desafios de adoção. O valor depende do engajamento da rede e da adesão dos usuários, podendo variar significativamente.
Utility token garante acesso a serviços no ecossistema blockchain, enquanto security token representa propriedade de ativos reais e exige conformidade regulatória de valores mobiliários.
Utility tokens permitem acesso a serviços blockchain sob regulação menos rigorosa, enquanto security tokens representam ativos e estão sujeitos a exigências estritas de conformidade, como registro, divulgação e padrões de proteção ao investidor.




