

Solana se destaca por ser uma blockchain plenamente programável, permitindo que terceiros desenvolvam e executem códigos, em linha com Ethereum e Avalanche. Diferente do Bitcoin, que oferece funcionalidades limitadas de smart contract, Solana foi projetada desde o início com a filosofia de alcançar o máximo throughput computacional.
A distinção está na abordagem da Solana em relação à performance do sistema. Com múltiplos nodes ao redor do mundo processando transações sem depender de confiança mútua, existe uma sobrecarga inerente na capacidade agregada de processamento (X). Enquanto a maioria das blockchains opera com apenas uma fração desse potencial teórico, o objetivo da engenharia da Solana é se aproximar de X ao máximo. Os indicadores atuais deixam clara essa diferença: Ethereum opera em cerca de 0,01x da capacidade teórica ou menos, enquanto Bitcoin atinge apenas uma centésima a uma milésima desse desempenho. A arquitetura única da Solana possibilita avançar significativamente em direção ao limite teórico, promovendo uma transformação no design de blockchains.
Para compreender a estratégia de escalabilidade da Solana, é importante considerar a evolução do hardware de computação. No final dos anos 1990 e início dos 2000, as velocidades dos processadores cresceram rapidamente, atingindo o auge com o Pentium 4, entre 4 e 4,5 GHz, por volta de 2005-2008. Desde então, houve uma estagnação, devido a um limite físico: o aumento de calor cresce de forma superlinear conforme a frequência aumenta. À medida que os transistores operam mais rápido, o calor se torna o grande limitador. Computadores de mesa e notebooks atingiram o limite de 3,5-4 GHz, enquanto dispositivos sem ventoinha, como iPhones e iPads—restritos pelo calor—ficam entre 2 e 2,5 GHz.
Apesar desse platô nas velocidades de clock, a performance computacional continuou evoluindo por três caminhos principais. Primeiro, houve otimização incremental de cada ciclo de processamento, mas ganhos modestos frente à era da Lei de Moore. Segundo, o paralelismo tornou-se a principal estratégia de escalabilidade. Placas gráficas modernas exemplificam esse movimento, utilizando processamento massivamente paralelo. Terceiro, a especialização dos chips resultou em ganhos—como nos iPhones, que contam com cerca de cem sub-processadores específicos para funções como câmera, vídeo e microfone.
Solana traz o princípio do paralelismo para a arquitetura blockchain. Ao aumentar o número de núcleos mantendo a frequência estável, a geração de calor não cresce desproporcionalmente, permitindo processamento paralelo escalável. Isso fornece uma trajetória de performance previsível: desenvolvedores conseguem projetar que o throughput vai crescer 10x, 100x ou até 1000x em 5–10 anos, acompanhando a evolução do silício.
Esse paralelo tecnológico ecoa a estratégia da Netflix. Ao fundar a empresa em 2002, Reed Hastings sabia que a infraestrutura de banda larga ainda não suportava streaming, mas, ao analisar a evolução do tráfego, a liderança da Netflix calculou que o streaming seria viável em médio prazo, permitindo construir a infraestrutura antes da maturação do mercado. Solana, de modo semelhante, antecipa demandas futuras de rede alinhadas à sua arquitetura de escalabilidade.
A arquitetura da Solana mira em uma visão ousada de escalabilidade: suportar um bilhão de usuários diários ativos, cada um gerando cem transações ao dia, totalizando cem bilhões de transações processadas diariamente. Para viabilizar essa escala, são necessárias soluções em camadas, combinando otimização do Layer-1 com abordagens criptográficas avançadas.
O caminho ideal é maximizar a capacidade do Layer-1 da Solana, que ainda tem grande potencial a ser explorado. Quando o Layer-1 atingir seu limite prático, o ecossistema terá a neutralidade crível, adoção e reconhecimento global necessários para posicionar Solana como base de infraestrutura. A partir daí, o throughput pode ser ampliado por zero-knowledge roll-ups—construções criptográficas que verificam cálculos fora da blockchain e publicam apenas provas mínimas na rede. Esse modelo em camadas representa o caminho mais provável para escalar ao extremo mantendo segurança e descentralização.
O valor da descentralização no DeFi vai além da resistência à censura, abrangendo a neutralidade crível—conceito ainda mais fundamental. Neutralidade crível é o consenso de que um sistema opera de forma imparcial, permitindo que todos os participantes, sejam grandes instituições financeiras ou usuários individuais de qualquer economia, atuem sob as mesmas regras e restrições.
Essa neutralidade funciona como um acordo coletivo sobre o presente e o futuro do sistema. Quando diferentes perfis de usuários e interesses concordam que a camada de processamento de transações e o banco de dados subjacente são neutros, há um novo patamar de confiança, sem necessidade de intermediários centralizados. Essa neutralidade crível é a verdadeira inovação das finanças descentralizadas, permitindo coordenação entre partes que, de outro modo, dependeriam de instituições intermediárias.
Solana representa uma nova abordagem à arquitetura blockchain, inspirada em princípios de física computacional e design de hardware. Ao ser projetada desde o início para throughput máximo, abraçar o paralelismo como estratégia de escala e oferecer uma trajetória de performance alinhada à evolução do silício, Solana se posiciona como infraestrutura pronta para as demandas do futuro, não para as limitações do presente. Da mesma forma que a Netflix antecipou a maturação da banda larga, a arquitetura da Solana está pronta para acomodar os volumes de transações e casos de uso do amanhã. Com Layer-1 otimizado e criptografia zero-knowledge, o protocolo pode escalar para bilhões de usuários ativos diários. Por fim, como destaca Kyle Samani, a importância da Solana está em mostrar que DeFi verdadeiro exige não só resistência à censura, mas neutralidade crível—um sistema imparcial onde todos atuam sob as mesmas regras, independentemente de porte institucional ou localização.
Kyle Samani é cofundador e sócio-gerente da Multicoin Capital, um fundo de venture capital de destaque voltado para investimentos em blockchain e cripto. Ele é referência no segmento Web3 e ativos digitais.
A Multicoin Capital é uma gestora de venture capital orientada por teses, especializada em criptomoedas e empresas de blockchain. Ela opera um Master Fund para investimentos em tokens e um Venture Fund que apoia empreendedores cripto em estágio inicial, com aportes de US$1M a US$50M, focando em transformar grandes mercados.
A Multicoin Capital já investiu em mais de 120 empresas, incluindo projetos como MCDEX, Web3Auth e diversas companhias de infraestrutura blockchain. O fundo prioriza empreendimentos inovadores em web3 e cripto com fundamentos sólidos.
A Multicoin Capital toma decisões baseadas em teses, focando no potencial de transformação de mercado a longo prazo. Analisa ecossistemas blockchain e criptoativos emergentes por meio de seu Master Fund (fundo temático de hedge para tokens) e Venture Fund (que apoia empreendedores cripto em estágio inicial com aportes de US$1M a US$50M).



