

Compreender o Ecossistema das Criptomoedas na China:
A postura da China relativamente à regulação do Bitcoin e das criptomoedas representa uma das intervenções estatais mais rigorosas no universo dos ativos digitais. A evolução desta abordagem teve impacto direto nos mercados globais de criptomoedas e orientou debates regulatórios a nível internacional. Eis os pontos essenciais a reter:
Desde 2017, a China impôs uma proibição total às plataformas de negociação de criptomoedas e às Initial Coin Offerings (ICO), alterando profundamente o contexto interno do setor. No entanto, a posse individual de Bitcoin permanece numa zona legal ambígua, o que gera incerteza tanto para particulares como para empresas.
A decisão de proibir baseou-se em três motivações interligadas: garantir controlo de capitais para evitar saídas ilícitas, combater fraudes de larga escala que visam a população mais vulnerável e preservar o monopólio do banco central sobre a emissão monetária e a política financeira.
Casos emblemáticos, como a fraude de 5 mil milhões de libras de Qian Zhimin e o diferendo EUA-China relativo a 13 mil milhões de dólares em Bitcoin apreendidos, ilustram as prioridades das autoridades chinesas e o caráter internacional do crime cripto.
Os cidadãos chineses enfrentam limitações severas na negociação legal de Bitcoin através de plataformas nacionais. Atividades de mineração e o uso de bolsas internacionais decorrem em cenário de incerteza regulatória, expondo os intervenientes a riscos legais e financeiros consideráveis.
Em resposta aos desafios das criptomoedas, a China desenvolveu o Yuan Digital (e-CNY), moeda digital do banco central sujeita a supervisão estatal que conjuga a inovação da blockchain com o controlo governamental.
Para quem pondera interagir com o mercado cripto chinês, é essencial conhecer estas restrições e as suas implicações práticas na aplicação da lei, a fim de assegurar conformidade legal e uma gestão adequada do risco.
A entrada em cena do regulador chinês no setor das criptomoedas ocorreu em dezembro de 2013, com o Banco Popular da China a declarar que o Bitcoin não tem estatuto de moeda legal segundo a legislação chinesa. Este enquadramento permitiu que particulares negociassem Bitcoin como “mercadoria virtual” para fins especulativos ou de investimento, mas proibiu expressamente as instituições financeiras de facilitar ou apoiar operações com criptomoedas.
A reação do mercado foi imediata e intensa: o preço do Bitcoin caiu cerca de 50% após o anúncio, demonstrando o peso da política regulatória chinesa nos mercados globais de criptoativos. Apesar da incerteza e volatilidade, as plataformas de negociação continuaram a operar na China durante mais quatro anos, alimentando um ecossistema crescente de entusiastas para quem as restrições de 2013 eram consideradas administráveis.
Em setembro de 2017, o contexto regulatório mudou radicalmente com a imposição de uma proibição completa tanto sobre as Initial Coin Offerings como sobre as bolsas de criptomoedas. As ICO foram classificadas como “financiamento público ilegal não autorizado”, associadas a fraude, esquemas em pirâmide e branqueamento em larga escala. Todas as plataformas nacionais receberam ordens para encerrar imediatamente, levando a indústria a relocalizar-se no estrangeiro quase da noite para o dia.
O efeito nos mercados globais foi marcante: antes da proibição, a China representava mais de 90% do volume mundial de negociação de Bitcoin. Após o encerramento das bolsas, o volume caiu de forma expressiva e deslocou-se para plataformas no Japão, Coreia do Sul e outros mercados com regulação mais flexível. A repressão sinalizou que a China via as criptomoedas como ameaça estrutural à estabilidade financeira e ao controlo estatal, e não apenas como um problema regulatório transitório.
O governo chinês apontou três preocupações estruturais que fundamentaram a repressão às criptomoedas, refletindo prioridades políticas amplas.
Em primeiro lugar, o controlo de capitais foi sempre a principal prioridade dos reguladores chineses. A China impõe limites estritos à transferência anual de fundos para o estrangeiro, com a Administração Estatal de Câmbio a fixar um teto de 50 000 dólares por pessoa e por ano. Estes controlos visam estabilizar a taxa de câmbio, prevenir fugas de capitais em períodos de incerteza económica e proteger as reservas cambiais. O Bitcoin e outras criptomoedas ameaçavam este sistema ao permitir a ultrapassagem destes limites, facilitando a saída não autorizada de milhares de milhões de dólares.
Em segundo lugar, as autoridades manifestaram preocupação com fraudes de grande escala, em especial esquemas Ponzi disfarçados de investimentos legítimos em criptoativos, que lesaram sobretudo cidadãos idosos e menos informados financeiramente. Estes esquemas prometiam retornos irreais e utilizavam técnicas sofisticadas de marketing, causando prejuízos devastadores para milhares de famílias. A complexidade técnica das criptomoedas e a ausência de salvaguardas para investidores criavam terreno fértil para predadores financeiros.
Em terceiro lugar, o banco central chinês visava manter o seu monopólio constitucional sobre a emissão de moeda, proibindo qualquer forma de “bilhete-título” ou moeda alternativa que pudesse concorrer com o renminbi. A adoção massiva de criptomoedas descentralizadas minaria a capacidade do governo de implementar políticas monetárias e garantir a estabilidade financeira.
O caso Qian Zhimin é um dos maiores esquemas de fraude com criptomoedas alguma vez julgados, ilustrando a escala do crime cripto na China e a necessidade de cooperação internacional. Entre 2014 e 2017, Qian geriu a Lantian Gerui, empresa que alegava operar na mineração de Bitcoin e no desenvolvimento de tecnologia de saúde, mascarando um esquema Ponzi de grandes dimensões.
O esquema defraudou cerca de 128 000 investidores chineses em aproximadamente 4,6 mil milhões de libras, prometendo retornos de 200% em dois anos e meio — ofertas que levantariam suspeitas imediatas, mas que atraíram investidores em busca de riqueza rápida. Qian fugiu da China em 2017 com a sua fortuna em Bitcoin, instalando-se numa mansão de luxo em Hampstead, Londres, mantendo um estilo de vida sumptuoso com ativos roubados.
A polícia britânica deteve Qian no início de 2024, após uma investigação internacional envolvendo autoridades chinesas e britânicas. Foram apreendidos mais de 61 000 Bitcoin dos dispositivos de Qian, a maior apreensão de criptoativos da história do Reino Unido. No final de 2025, Qian foi condenada a 11 anos e oito meses de prisão por branqueamento de capitais, transmitindo um sinal inequívoco sobre as consequências da fraude cripto. O caso demonstrou que mesmo criminosos sofisticados não conseguem ocultar-se atrás do anonimato das criptomoedas quando existe cooperação internacional eficaz.
Um conflito diplomático significativo eclodiu quando a China acusou os EUA de terem orquestrado aquilo que apelidou de roubo de 127 000 Bitcoin, avaliados em cerca de 13 mil milhões de dólares — uma das maiores polémicas internacionais envolvendo criptoativos. O Centro Nacional de Resposta a Emergências de Vírus Informáticos da China atribuiu o ataque à pool de mineração LuBian a hackers com perfil estatal, sugerindo envolvimento de agentes patrocinados por governos.
Os Bitcoin roubados foram rastreados até carteiras detidas pelo governo dos EUA, após apreensão no âmbito do processo contra o magnata cambojano Chen Zhi, acusado de fraude informática e branqueamento de capitais. O Departamento de Justiça dos EUA classificou esta apreensão como a maior ação de confisco digital de sempre, sublinhando a sua dimensão excecional.
As autoridades norte-americanas recusaram detalhes sobre os métodos de obtenção dos Bitcoin, alegando investigações em curso e questões de segurança nacional. Para a China, a apreensão foi interpretada como ato de agressão cibernética e não como aplicação legítima da lei, agravando as tensões entre as duas maiores economias mundiais no domínio digital. Esta disputa tornou visíveis divergências profundas sobre regulação de criptoativos, jurisdição policial e limites da atuação estatal na esfera digital.
Apesar das tensões políticas relativas ao caso LuBian, China e EUA aumentaram a colaboração no combate a redes transnacionais de fraude com criptoativos sedeadas sobretudo no Sudeste Asiático, nomeadamente Camboja, Myanmar e Laos. Estas organizações criminosas industrializaram a fraude cripto, mantendo trabalhadores em condições análogas à escravatura e obrigando-os a executar esquemas sofisticados que lesam vítimas a nível mundial.
O Departamento de Justiça dos EUA criou a Scam Center Strike Force para combater a fraude cripto, que terá causado perdas de quase 10 mil milhões de dólares anuais a vítimas norte-americanas. Esta força-tarefa coordena-se com parceiros internacionais, incluindo autoridades chinesas, para prender suspeitos, apreender ativos e aplicar sanções financeiras. Esta cooperação demonstra que ambos os países reconhecem a fraude cripto como ameaça comum e privilegiam respostas coordenadas, independentemente de divergências em casos específicos ou de contexto geopolítico.
Estes casos mostram que as detenções de Bitcoin pelo Estado chinês resultam essencialmente de ativos criminais apreendidos, e não de investimentos estratégicos. Ao contrário de algumas especulações, não há indícios de que a China mantenha reservas secretas de Bitcoin; os ativos detidos pelo governo são quase exclusivamente originários de operações de combate ao crime. Esta distinção é relevante para compreender a política chinesa em relação aos ativos digitais e as suas intenções futuras.
A proibição do Bitcoin na China criou uma zona cinzenta complexa, em que a posse não é criminalizada, mas a utilização prática é muito restrita e juridicamente arriscada. A lei impede o funcionamento de bolsas e plataformas de negociação nacionais, mas não criminaliza a mera posse de Bitcoin por particulares. Esta ambiguidade fomentou um mercado paralelo em que muitos entusiastas chineses continuam ativos por via de soluções alternativas.
Estas alternativas incluem o uso de bolsas estrangeiras, plataformas peer-to-peer que ligam compradores e vendedores diretamente, e VPN para contornar bloqueios geográficos. Alguns utilizadores recorrem a moradas ou documentos estrangeiros para manter contas em plataformas internacionais, enquanto outros participam em redes informais de negociação nas redes sociais.
No entanto, estas soluções expõem os participantes a riscos sérios: não existe proteção legal em caso de falha da plataforma ou litígio, e as autoridades monitorizam os fluxos bancários podendo congelar contas suspeitas de envolvimento em transações cripto, mesmo que a compra de Bitcoin não constitua crime. As instituições financeiras são obrigadas a reportar operações suspeitas, o que inibe a participação.
A mineração foi também alvo de forte repressão, levando ao êxodo das grandes operações para o Cazaquistão, EUA, Canadá e outros mercados. A proibição da mineração, motivada sobretudo por razões energéticas e ambientais, eliminou a preponderância da China na mineração global de Bitcoin. Quem pretender negociar Bitcoin na China terá de operar neste contexto legal ambíguo, enfrentando riscos que vão do congelamento de contas a complicações legais sérias, dependendo da escala e natureza das operações.
Mantendo a proibição sobre criptomoedas descentralizadas, a China apostou na tecnologia blockchain com o desenvolvimento do Yuan Digital (e-CNY), moeda digital do banco central controlada pelo Estado. O Banco Popular da China vê nesta moeda digital uma resposta aos desafios do Bitcoin, conjugando inovação tecnológica com controlo total do Estado.
Ao contrário das transações pseudónimas do Bitcoin, cada pagamento em Yuan Digital é monitorizado e rastreável pelas autoridades, permitindo intervenção direta se necessário. O banco central assegura toda a infraestrutura, reforçando os instrumentos de política monetária e supervisão financeira. Esta arquitetura oferece aos reguladores uma visibilidade sem precedentes sobre os fluxos monetários, facilitando a fiscalização fiscal, o combate ao branqueamento e a implementação de políticas monetárias mais precisas.
Esta abordagem permite que a China beneficie das vantagens da blockchain — custos de transação reduzidos, liquidação rápida e inclusão financeira — sem abdicar dos controlos de capitais e da supervisão que motivaram a proibição inicial do Bitcoin. Instituições financeiras estatais como o China Zheshang Bank e o Postal Savings Bank of China já lideram projetos blockchain para custódia de ativos e financiamento de cadeias de abastecimento, evidenciando que a oposição chinesa nunca foi à tecnologia de registo distribuído, mas sim ao seu uso em sistemas fora do controlo estatal.
O Yuan Digital persegue também objetivos políticos mais amplos: reduzir custos de transação para empresas e consumidores, alargar os serviços financeiros a regiões rurais e desfavorecidas e, potencialmente, desafiar a supremacia do dólar americano no comércio internacional. O sistema permite pagamentos programáveis, com condições, datas de expiração ou restrições de uso — o que pode viabilizar políticas sociais inovadoras, mas também suscitar preocupações sobre vigilância estatal e privacidade financeira.
Caso tenha sucesso, o modelo chinês poderá servir de exemplo para governos que pretendam responder aos desafios das criptomoedas criando alternativas controladas, em vez de optarem pela proibição total. A experiência chinesa é seguida de perto por países como a União Europeia e várias economias emergentes na elaboração dos seus próprios programas de moeda digital do banco central.
A abordagem rigorosa e global da China ao Bitcoin reflete prioridades nacionais profundas quanto ao controlo de capitais, soberania financeira e autoridade estatal, sem sinais de alteração no curto prazo. Os grandes casos de fraude e as ações de aplicação da lei mostram que o foco recai sobretudo no combate a esquemas ilícitos, plataformas ilegais e fuga de capitais, mais do que na criminalização da mera posse de criptomoedas.
Apesar das barreiras legais e práticas ao acesso ao Bitcoin por cidadãos chineses, o forte investimento no Yuan Digital evidencia que a China aposta na inovação blockchain em moldes próprios — assegurando controlo e procurando eficiência. Conhecer estas restrições e as suas consequências práticas é essencial para qualquer interveniente no mercado cripto chinês, seja residente, investidor ou parceiro institucional.
O mercado global de criptomoedas ajustou-se à ausência da China, com volumes de negociação e mineração a mudarem-se para outras jurisdições. Contudo, a evolução futura da política chinesa em matéria de inovação digital, regulação e potenciais mudanças regulamentares continuará a influenciar o panorama global dos criptoativos. A experiência chinesa oferece lições importantes sobre o equilíbrio entre sistemas financeiros descentralizados e autoridade estatal — lições relevantes para o debate político tanto em democracias como em regimes autoritários, à medida que os ativos digitais se tornam cada vez mais centrais.
A China implementou uma proibição total da negociação e mineração de Bitcoin a partir de 31 de maio de 2025. A interdição abrange todas as transações e operações de mineração de criptomoedas, incluindo Bitcoin e outros criptoativos de referência. A proibição mantinha-se plenamente em vigor em janeiro de 2026.
A proibição visa garantir a estabilidade financeira, prevenir atividades ilícitas como o branqueamento de capitais e conter a fuga de capitais. Estes mecanismos destinam-se a proteger a segurança económica e a evitar riscos financeiros sistémicos.
A detenção de Bitcoin na China não é ilegal. Os particulares não são sancionados pela mera posse. No entanto, a negociação pública está restringida. Apenas transferências peer-to-peer entre particulares são permitidas.
Na China, a negociação, mineração e emissão de criptoativos são proibidas. Todas as operações de investimento cripto estão vedadas por lei. Estes regulamentos vigoram desde a sua entrada em vigor.
A proibição abrange todas as atividades de mineração de criptomoedas. A mineração individual é considerada ilegal e pode ser alvo de sanções administrativas, consoante as políticas regulatórias.
Na China, é possível recorrer a plataformas reguladas em Hong Kong ou bolsas estrangeiras em conformidade. Alternativas incluem o investimento em tecnologia blockchain, fundos de ativos digitais via instituições financeiras licenciadas e participação em protocolos DeFi regulados. Acompanhe sempre eventuais alterações regulatórias.
A proibição chinesa provocou uma redução significativa na taxa global de hash da mineração, com impacto na segurança da rede Bitcoin. Diminuiu a participação mundial na mineração e alterou a dinâmica do mercado, embora a resiliência descentralizada do Bitcoin tenha permitido a adaptação e recuperação da rede.
A China proíbe estritamente o Bitcoin enquanto moeda, tratando-o como mercadoria virtual. Nos EUA, a regulação é fragmentada por estado, sob supervisão da SEC. Japão e Austrália aceitam pagamentos em Bitcoin. Singapura e Reino Unido optam por abordagens mais flexíveis. A harmonização internacional de normas cripto está a aumentar.
A China mantém restrições rigorosas sobre as criptomoedas, mas futuras alterações não estão excluídas. Com o aumento da adoção global e evolução dos enquadramentos regulatórios, é possível que a China avalie uma legalização controlada para equilibrar inovação e estabilidade financeira.











