

A postura restritiva do governo chinês em relação às criptomoedas tem repercussões profundas nos mercados financeiros mundiais, sobretudo devido ao peso económico da China e ao seu anterior domínio na mineração de criptomoedas. Esta alteração de políticas constitui uma das intervenções regulatórias mais marcantes no universo dos ativos digitais, impactando stakeholders em múltiplas áreas.
Para investidores e traders internacionais, compreender a proibição das criptomoedas na China é fundamental para gerir riscos e definir estratégias. A medida gera efeitos cascata nos mercados internacionais, aumentando frequentemente a volatilidade dos preços e volumes transacionados. Sempre que a China anuncia novas restrições ou reforça a fiscalização, as bolsas globais registam oscilações acentuadas, obrigando os intervenientes a reavaliar as suas posições. Esta interdependência faz com que, mesmo fora da China, seja vital acompanhar de perto a evolução da política chinesa.
O impacto sentido pelos traders vai além da volatilidade. A proibição alterou profundamente padrões de negociação e mecanismos de liquidez no mercado global. Sem acesso aos mercados domésticos, os traders chineses transferiram o volume de negociação para plataformas offshore e redes peer-to-peer, surgindo assim novas oportunidades de arbitragem, mas também riscos acrescidos ligados à incerteza regulatória e à segurança das plataformas.
Para os utilizadores, sobretudo residentes na China, a proibição restringe de forma severa o acesso ao ecossistema dos ativos digitais. Os cidadãos chineses enfrentam constrangimentos significativos para negociar, deter ou aceder a serviços de finanças descentralizadas (DeFi). Esta limitação condiciona não só oportunidades de investimento, mas também o acesso a soluções financeiras inovadoras e à participação na economia digital global. Muitos utilizadores recorrem a alternativas como VPN e contas offshore, embora estas envolvam riscos legais e de segurança.
O efeito sente-se igualmente nas empresas e empreendedores do setor blockchain e cripto. Muitas entidades que operavam na China foram obrigadas a relocalizar-se ou cessar atividade, o que implicou repensar modelos de negócio e adotar estratégias alternativas. Este êxodo abriu oportunidades em jurisdições mais abertas às criptomoedas, ao mesmo tempo que concentrou riscos regulatórios em regiões com políticas mais restritas.
O percurso da China até à proibição total das criptomoedas começou em 2017, com as primeiras intervenções sobre as Initial Coin Offerings (ICOs) e as bolsas de criptoativos nacionais. Estas iniciativas refletiram o crescente receio governamental sobre a vertente especulativa dos ativos digitais e o risco de fuga de capitais e fraude financeira.
O quadro regulatório tornou-se muito mais rigoroso em 2021, marcando um ponto de rutura na abordagem chinesa. Nessa altura, o governo implementou uma proibição generalizada, tornando crime qualquer atividade relacionada com criptomoedas dentro do país. Foram encerradas as bolsas ainda operacionais, proibidos serviços financeiros ligados a criptoativos e declaradas ilegais todas as transações em criptomoedas. A repressão de 2021 resultou de anos de políticas cada vez mais restritivas e confirmou o afastamento definitivo da China em relação às moedas digitais descentralizadas.
Nos últimos anos, estas imposições desmantelaram a infraestrutura doméstica de criptomoedas. O que era um mercado dinâmico passou a operar na clandestinidade ou a deslocar-se para o exterior. Entusiastas e empresas chinesas do setor veem-se obrigados a recorrer a plataformas estrangeiras ou a cessar atividade. O governo recorre a sistemas de monitorização sofisticados para detetar transações, contando com a colaboração de instituições financeiras para bloquear contas e prevenir operações suspeitas.
O lançamento do Yuan Digital (e-CNY) em 2021, enquanto moeda digital de banco central (CBDC), foi um marco estratégico. Esta moeda governamental reflete a aposta da China numa solução digital eficiente, mas sob controlo centralizado. Ao contrário de criptomoedas como Bitcoin ou Ethereum, o Yuan Digital assenta numa blockchain permissionada, gerida pelo Banco Popular da China, o que dá ao Estado uma visibilidade total sobre as transações.
A arquitetura do Yuan Digital permite ao governo monitorizar transações em tempo real, incorporar regras de política monetária diretamente na moeda e combater de forma eficaz o branqueamento de capitais e a evasão fiscal. Este grau de controlo contrasta com o caráter pseudónimo das criptomoedas convencionais — motivo central da proibição. O Yuan Digital já foi testado em várias cidades e setores, desde pagamentos no retalho até salários públicos.
No plano internacional, a proibição chinesa originou uma deslocação massiva das operações de mineração. O abandono do território chinês impulsionou novos polos em países com regulação mais acessível e energia abundante. Os Estados Unidos destacaram-se, através de estados como Texas, Wyoming e Nova Iorque, que oferecem quadros legais claros e energia renovável.
O Canadá também atrai operações de mineração, sobretudo em Quebec e Alberta, beneficiando de climas frios e energia hidroelétrica. O Cazaquistão registou igualmente um aumento expressivo, mas adotou entretanto regras para gerir o consumo energético e tributar o setor.
Esta redistribuição global do poder de mineração impacta a descentralização e segurança das redes blockchain. O afastamento do domínio chinês permitiu uma maior dispersão do poder de computação, reforçando a descentralização do Bitcoin, embora tenha originado concentrações em novos mercados, com desafios em matéria ambiental e regulatória.
A análise estatística da proibição chinesa evidencia o seu impacto global. Antes das restrições, a China liderava a mineração de Bitcoin, com mais de 65 % da taxa de hash mundial, graças ao acesso a energia barata e à concentração de fabricantes de hardware.
Após a proibição, a quota chinesa caiu para perto de zero em poucos meses, numa das mudanças mais rápidas e profundas da história do setor. Isto confirmou tanto a eficácia das autoridades como a flexibilidade dos mineradores. Os EUA rapidamente assumiram a liderança, com cerca de 35 % do mercado, apoiados em fontes energéticas renováveis e gás natural desperdiçado.
O Yuan Digital registou uma adoção rápida, atingindo um volume de transações de 200 mil milhões RMB pouco depois do lançamento, impulsionado por incentivos oficiais, integração com Alipay e WeChat Pay, e uso obrigatório em operações públicas. O projeto-piloto abrange centenas de milhões de utilizadores em compras, transportes e transferências internacionais.
O governo reivindica uma redução de 70 % nos crimes financeiros relacionados com cripto, nomeadamente burlas, esquemas Ponzi e ICOs fraudulentas, após a proibição. Estes números comprovam o sucesso da política na proteção ao consumidor, embora haja críticas quanto ao impacto negativo na inovação e no investimento lícito.
Outros indicadores mostram o impacto económico da realocação da mineração, responsável por perdas de milhares de milhões de dólares em atividade nas províncias chinesas, enquanto países recetores beneficiam de mais emprego, investimento e receitas fiscais. A postura restritiva poderá ainda limitar o papel da China na inovação blockchain para além das criptomoedas.
A nível energético, as operações chinesas consumiam cerca de 120 terawatts-hora anuais, contribuindo para emissões de carbono e sobrecarga das redes. A migração para outros países alterou o perfil ambiental da mineração, com alguns destinos a oferecer energia mais limpa e outros ainda dependentes de combustíveis fósseis.
A proibição total das criptomoedas na China é uma decisão estratégica multifacetada, destinada a controlar riscos financeiros num mercado volátil e não regulado, que o governo considera ameaçador para a estabilidade económica e social. Ao eliminar a negociação e mineração domésticas, pretende-se evitar a fuga de capitais, reduzir especulação e manter o controlo sobre o sistema financeiro.
A aposta no Yuan Digital é o pilar da estratégia do país para finanças digitais. Ao contrário das soluções descentralizadas, o Yuan Digital proporciona ao governo ferramentas inéditas para a política monetária, monitorização económica e inclusão financeira, mantendo o controlo centralizado e projetando a China como líder nas moedas digitais. O seu êxito poderá influenciar a adoção internacional de CBDC e transformar o sistema de pagamentos global.
O alcance internacional das políticas chinesas vai além das fronteiras do país, trazendo desafios e oportunidades para o setor dos ativos digitais. A disrupção dos mercados e da mineração obrigou as empresas a diversificar estratégias e adaptar-se a um quadro regulatório exigente. A redistribuição da mineração reforçou a descentralização, mas também criou novas concentrações regionais de poder computacional.
Para investidores e traders, a principal lição é a necessidade de acompanhar de perto a evolução regulatória e perceber o impacto das decisões em grandes economias sobre os mercados. A experiência chinesa demonstra que a ação governamental pode alterar radicalmente o setor, criando riscos e oportunidades para quem se mantiver informado e flexível. A diversificação geográfica, de ativos e estratégias é fundamental para gerir o risco regulatório.
A mobilidade das operações de mineração evidencia a importância da clareza legal e dos custos energéticos para a localização dos investimentos. Países com enquadramento favorável, energia acessível e ambiente propício ao negócio tendem a atrair capital e benefícios. Esta competição incentiva abordagens regulatórias equilibradas, fomentando inovação sem descurar preocupações ambientais, de estabilidade e proteção do consumidor.
A tendência crescente para moedas digitais oficiais é, provavelmente, a consequência mais duradoura. À medida que mais países lançam CBDC, o sistema financeiro global poderá transformar-se profundamente, com ganhos na rapidez dos pagamentos, custos e inclusão, mas também desafios em privacidade, vigilância e redefinição do papel dos bancos.
Compreender estas dinâmicas é essencial para quem atua em criptomoedas, blockchain ou fintech. O equilíbrio entre moedas descentralizadas e digitais centralizadas será determinante para o futuro das finanças. É fundamental manter vigilância sobre tendências regulatórias, tecnologia e dinâmicas de mercado para navegar este contexto exigente.
A experiência chinesa ilustra o alcance e os limites do poder regulatório sobre mercados digitais, a resiliência do setor das criptomoedas e os compromissos necessários entre inovação e controlo no contexto digital. À medida que o sistema financeiro global evolui, as lições da abordagem chinesa continuarão a influenciar decisões e estratégias em todo o mundo.
A China baniu as criptomoedas para proteger a estabilidade financeira, controlar fluxos de capitais e mitigar riscos sociais. Esta escolha privilegiou a estabilidade em detrimento de uma rápida adoção do cripto, enquanto o país aposta no desenvolvimento do Yuan Digital.
A proibição impede a negociação e mineração de criptomoedas, veda serviços de ICO e proíbe que empresas e bancos aceitem ativos digitais. Os cidadãos não podem comprar nem vender Bitcoin, Ethereum ou outros criptoativos.
A proibição global chinesa desencadeou vendas massivas, originando quedas no preço do Bitcoin e redução da taxa de hash. Após a implementação da política em 2025, a volatilidade intensificou-se, mas o mercado estabilizou ao deslocar volumes para outras regiões, demonstrando resiliência do setor cripto.
A proibição da negociação e mineração de criptomoedas na China teve início em 2021, tendo a proibição total sido aplicada no final de setembro desse ano.
A posse individual de criptomoedas não é considerada ilegal na China. Os tribunais reconhecem os criptoativos como bens protegidos por direitos de propriedade. No entanto, a negociação, mineração e emissões de tokens são atividades proibidas. A restrição recai sobre as atividades, não sobre a detenção.
O Yuan Digital foi lançado para controlar saídas de capitais, evitar concorrência que possa fragilizar o Yuan e explorar a tecnologia blockchain para reforçar o controlo monetário e a estabilidade financeira.











